quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

#SobrePalavrasEOlhares

Era uma vez um mundo com apenas dois tipos de pessoas: as de olhares e as de palavras.


As de palavras não costumavam se entender muito com as de olhares, e vice versa. Quando uma olhava, a outra falava. Quando outra falava, uma desviava. E assim eram praticamente todos os dias. Por serem diferentes, elas se dividiam e mal se esforçavam pra se entender.


As que falavam costumavam casar e ter filhos com as que falavam. Moravam juntas, falavam sobre as paredes, sobre os lençóis, sobre os programas da tv e sobre o supermercado. E não era raro ver essas palavras virando gritos, e discussões que não terminavam nunca. E as casas começavam a ficar tão cheias de letras e palavras, de textos e poesias e xingamentos, que num certo momento cada um estava num canto da sala, esmagados por negritos, itálicos e caixas altas, e não conseguiam mais falar nenhuma palavra, já que não havia mais espaço. Aí então reinava o silêncio. Mas elas não entendiam o silêncio. E ali tudo acabava.


Já as pessoas de olhares, ficavam andando pelas ruas e atirando piscadelas pra todos os lados. Era só olhar pro lado e já vinha outro olhar. E uma sobrancelha levantada. E uma encarada demorada. E nesses segundos de trocas de olhares os sentimentos eram entendidos entre essas pessoas de uma forma tão rápida e segura que ninguém conseguia direito explicar (só os que viam). Mas de tanto olhar, eles não prestavam atenção no que lhes falavam. E nem no que lhes diziam e gritavam. Só no que mostravam. E o silêncio era a melhor forma de se comunicar com eles. Mas às vezes distraídos perdiam um olhar, ou se esqueciam de ver. E então se sentiam sozinhos, num mundo onde ninguém os compreendia.


Então um dia uma pessoa de palavra, já cansada de tanto diálogo, encontrou uma pessoa de olhar, também cansada de nunca ser entendida. A princípio elas tentaram falar e olhar ao mesmo tempo. Mas notaram que não daria certo. Daí, a que falava aprendeu umas piscadas. E a que olhava aprendeu a falar. E começaram então a se perguntar se era mesmo necessário falar o que já era visto. E conversavam por horas e horas sobre coisas que os olhares não enxergariam. Então souberam entender que tem hora pra falar e tem hora pra ver. E que na verdade, o importante é invisível aos olhos e palavras são tão gostosas e perecíveis quanto um copo de leite fora da geladeira.



"Olha nos meus olhos e esquece o que passou..."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

#CoraçãoBurro

Ouvi muito essa expressão nos últimos dias e percebi que quase todas as pessoas que conheço já me disseram ao menos uma vez 'meu coração é muito burro'. Ficou estabelecido na consciência coletiva que, ao ouvirmos somente nosso coração vamos acabar sofrendo, e se ouvirmos a razão iremos sair ilesos dos relacionamentos. Não é bem assim.
Na verdade a questão é que quando amamos ficamos mais propensos a nos decepcionar e a sentir dor. Vemos a outra pessoa como uma fantasia,pois conseguimos ver muito além do que ela já é! Antecipamos sua grandeza,pois confiamos e acreditamos em sua grandeza oculta,mas qualquer segundo de realidade pode nos machucar,somos humanos,geramos expectativas,não dá pra negar.

Quando entramos num relacionamento acreditamos que encontramos a pessoa que preenche todos nossos requisitos. E quando saímos do mesmo relacionamento fazemos uma lista de novos requisitos.

Descobrimos coisas que precisamos, coisas que nos fazem bem e que admiramos. E percebemos tudo que faz mal, que faz falta e que cobramos.
Aí fica aquela coisa, só vamos nos apaixonar novamente quando uma pessoa preencher todos as qualidades que achamos necessárias e que talvez a pessoa anterior não possuía.

A parte do coração burro entra agora. Sentimos que nosso coração é burro quando ele bate mais forte e nos faz pensar o dia todo em uma pessoa que não preenche nossos requisitos. Quando queremos o beijo e o abraço de uma pessoa que tem os defeitos que você procura fugir. Quando vemos que as pernas tremem por uma pessoa que está longe de ser a que você menos vai brigar, menos vai chorar e sofrer.

 A pessoa não concorda com algum ponto de vista seu, ela não quer sempre ir aos mesmos lugares e nem gosta da mesma comida. A pessoa gosta de um estilo de música oposto o seu....

Mas você se sente bem ao lado dela. Você se sente feliz e completo quando está nos seus braços. Você dorme feliz quando ouve que ela está feliz. Você se preocupa com o que ela pensa, com o que ela sente. Você quer olhar dentro dos olhos dela. Você gosta do perfume, do toque e do gosto do beijo. Você a vê passar e seus olhos seguem. Você quer que ela fale com você, que conte com você e que queira você.

Se você é assim, seu coração está sendo o que julgamos de 'burro'. Você luta contra a razão da sua cabeça e das outras pessoas para poder saciar o que seu coração pede a cada instante. Você sente raiva do seu coração por ser assim e quando você não o ouve bate um arrependimento que nem sua razão consegue tolerar.

Por isso eu acredito que é válido ouvir o coração, por mais burro que ele pareça ser. Se ele insiste pra você que 2+2=peixe, compre um sushi na próxima prova de matemática. Seu coração é burro mas ele que te faz feliz. É ele que vai te fazer sentir calafrios de paixão e é ele que vai te deixar apaixonar outra pessoa. Seu coração que te deixa fazer o bem e trazer felicidade. Se ele sofrer a ponto de não aguentar ele pode pedir ajuda à razão pra se reerguer. A razão é a disciplinadora, a diretora do colégio. Mas ela não tem que mandar, senão você perde toda a diversão.

Meu coração é burro. Sempre foi. Ele sofre sozinho e aguenta sempre um baque maior que o anterior. Minha razão conversa com meu coração o tempo todo. Eles são amigos, trocam figurinhas, riem juntos mas nem sempre chegam num acordo. E quando não conseguem um veredicto deixam as coisas na mão de um terceiro elemento: o tempo. Que na verdade é só uma desculpa para deixar o conjunto razão-coração agir no automático e fazer o que realmente querem sem pensar demais e estragar tudo.