A única coisa que me resta fazer por nós dois é fingir que acredito que estou bem, que tudo está se ajeitando e que estou deixando isso para trás.
Acordei hoje e não vi o seu rosto ao abrir os olhos. Não procurei você em todas aquelas pessoas no ônibus. Não achei que o cheiro do perfume da moça que esbarrou em mim pudesse ser o seu cheiro. Não quis a sua mão para me ajudar a atravessar a rua. Não senti vontade de matar aquele casal abraçado porque eles não eram nós dois. Não tive esperanças de que você viesse me buscar na porta da faculdade. Nem imaginei que depois fossemos tomar sorvete em uma daquelas praças cafonas, nas quais eu me sentiria a vontade para te beijar o quanto eu quisesse. Não sonhei que você parasse o carro em qualquer canto e me agarrasse de surpresa cheia de vontade de mim. Não idealizei você aqui na minha casa, brincando com os meus cachorros. Não esperei que você me ligasse minutos depois de ter ido embora, me dizendo que já estava louca de saudade de mim. Não quis você dormindo aqui comigo, me abraçando a noite inteira, reclamando que eu durmo de edredon no calor e depois me dizendo que sou o homem da sua vida.
Não me peguei escrevendo uma história que eu tinha me prometido ter terminado. E nem estou me matando por dentro para tentar acreditar em tudo isso.
