"Meu problema é que sempre pequei pelo excesso.
Na carência, na doação, na atenção, na busca pelo inalcançável feedback: sempre um pouco demais.
Sei lá qual a regra que essas pessoas usam pra saber onde é que fica o tal limite.
O que sei é o seguinte: eu sempre o extrapolo.
Mais do que um rebelde sem causa, eu sou um rebelde com motivações, e muito justas.
Afinal, ser feliz é o quê, além de pretexto pra livro de auto-ajuda?
E pra ser rebelde nem é preciso cortar o cabelo, tatuar uma caveira nas costas e decepcionar a própria mãe. Basta que se atinja um certo nível de inconformidade, e se lute contra ele.Nem que seja internamente, nessa sala clara em que, sozinho, minha voz ecoa mais alto.
E tudo o que ela diz, na maior altura e indignação do mundo, é tudo o que eu ouvi a vida toda: “ um pouco menos".
“Ame um pouco menos, fale um pouco menos, reclame menos pela manhã. Espere um pouco menos, complique menos, somatize menos. Pelo amor de Deus, menos tentativas. Menos linhas neste texto, menos ansiedade, menos expectativa. Menos palavras de amor, porque elas podem ter menos respostas ainda. Menos voltas ao passado, porque elas podem te fazer sentir menor do que você é. Menos entrega, porque ela pode não ter devolução.”
Menos tanto, que sobra menos de mim.
E como alguém há de querer que um coração que vive demais se realize de menos?
E aí eu sigo com meu oitavo pecado capital, extrapolando e incluindo somas nesse mundo que só faz subtrair.
Tira um pouco de você, tira o dobro de mim.
Vai ver é por isso que o meu excesso é tanto: na falta do seu, sempre vai sobrar do meu.
Mas quem sabe com tantas sobras, eu me faça inteiro algum dia.
Finalmente uma utilidade para a matemática, que nunca deixou de ser penitência. "




